- Adeus !
Foi com essa simples palavra que o homem de cabelos grisalhos se despediu dos poucos amigos, ajeitou a pequena mochila nos ombros, e partiu em direção a uma terra desconhecida.
O homem de semblante duro, olhar sereno, que revelava por trás de algumas rugas que riscavam a face contemplativa a força de quem acreditava que havia algo mais na vida que a simples rotina do trabalho, começou a caminhar lentamente, com os pensamentos ainda um pouco confusos, em direção à colina que deveria marcar o ponto final da busca que empreendera desde muito cedo.
Estava, é verdade, um pouco ansioso. Lembrou-se do velho que encontrara por acaso numa taberna de uma distante vila. Na conversa regada a goles da bebida quente, ficou sabendo que a resposta que o atormentava durante tantos anos, poderia ser encontrada no alto daquela distante colina.
Apesar da bebida consumida em goles no balcão de uma taberna, e da aparência de louco do velho homem, acreditou em suas palavras e partiu.
Após vários dias de caminhada, chegou ao lugar que reconheceu ser a colina que o velho havia citado.
Subindo a colina e chegando ao topo, olhou em volta e sentou-se em uma pedra para esperar aquele que acreditava ter sua resposta. A colina tinha um aspecto mágico. Pairava um ar místico.
Enquanto esperava, pensou em toda a jornada que havia feito, nos lugares que passou, e nas pessoas que conheceu ao longo de tão obstinada jornada. Imagens flutuavam em sua mente como um filme quando sentiu um leve estremecimento no corpo.
Virou lentamente o rosto e o viu.
Ele surgiu do nada, silencioso, como se fosse parte daquele ambiente misterioso.
Vestia um manto escuro que lhe cobria todo o corpo, e que terminava no capuz que escondia o rosto quase por completo. A face encoberta dava-lhe um aspecto sinistro que causava arrepios. Os olhos de brilho indefinido, tinham uma expressão dura, apesar da estranha serenidade que transmitia.
Na mão esquerda trazia o instrumento que lhe dera fama ao longo dos séculos. Visão que aumentava a sensação de medo, no entanto, era essa visão que, embora assustadora, confirmava o encontro.
Estava ali, diante dele, sem um movimento sequer. Parecia não respirar, apenas o fitava.
Num misto de medo e coragem tentou iniciar a conversa.
- Olá!
Disse, tentando iniciar a conversa, mas não houve resposta.
- Vieste para me dar aquilo que procuro?
- Pode ser.
O diálogo começara seco, distante. Ficou confuso. Percebeu que precisaria abrir uma canal de comunicação para estreitar a distancia e decidiu insistir nas perguntas.
- Por que vieste então?
Novamente o silêncio. De certa forma, esperava que fosse daquele jeito. Afinal, aquele que nunca se mostra, viera encontrar-lhe. Por algum motivo, apresentar-se a ele. Precisava continuar.
- Vieste para levar-me?
- Não. Vim para guiá-lo por um caminho que não conheces e não podes andar sozinho.
- Por que escondes teu rosto?
- Não escondo. Apenas não consegue vê-lo.
- Usas um manto que vela tua face e me dizes que não consigo vê-lo? Não compreendo.
- Não me olhas com os olhos que deveria.
Ficou por um instante mudo e pensativo. Mas a conversa fora iniciada, e precisava continuar.
- Com que olhos devo olhar-te?
- Com os olhos do coração. Os olhos da vida.
- Embora não possa ver tua face, eu te conheço.
- Não. Não conheces. Tu sabes meu nome, mas não sabes o que significa nem o que sou.
Tu és a Morte. Aquele que anda envolto pelas sombras do inferno e que ceifa a vida. Chegas sorrateiro, sem hora, sem minuto, sem aviso. Cavalgas invisível acompanhado da tua ferramenta horrenda e fatal. Viajas pelo terrível vento do norte escolhendo tuas vítimas, aparentemente sem nenhum critério, a não ser tua insensibilidade. Simplesmente chega e ceifa a vida, interrompendo-a.
- Não. Não a interrompo. Eu a transformo fazendo cumprir a Lei. Tu me conheces como Morte, mas Eu sou
a Vida. Embora não compreendas, sou uma de suas faces.
- Tens razão. Não compreendo. Como explicas a vida interrompida de uma criança que parte no primeiro
suspiro, antes mesmo de ter nascido?
E a morte repentina de um homem que até então dedicara toda sua vida em ações de caridade, enquanto outro, tem sua existencia prolongada, apesar de sua conduta sempre forjada no egoísmo? É possível explicar tais fatos, senão pela falta de critérios de tua decisão?
- O que chamas de vida é interrompido para que o ciclo possa prosseguir.
- O que chamo de vida é Vida. O sorriso de uma criança, a expressão sublime da mulher que acabou de
dar a luz. O orgulho do velho ao transmitir a sabedoria adquirida ao longo dos anos aos mais novos. O olhar de profunda expressão do rapaz ao ofertar a delicada flor para a moça.
O canto melodioso do pequeno pássaro pousado no galho da árvore. Tudo isso entendo como Vida. E é essa a Vida que interrompes cruelmente.
- O que chamas apaixonado de vida, não poderia existir se eu não perpetuasse o Ciclo Sagrado.
- Entendo que Vida é o movimento que objetiva ascender a um nível de espiritualidade mais puro, ao
passo que a Morte é o Fim, o momento que interrompe esse movimento. Um castigo imposto. É desse
modo que entendo.
passo que a Morte é o Fim, o momento que interrompe esse movimento. Um castigo imposto. É desse
modo que entendo.
- Entendes a Vida com a visão de um mortal no plano de vida material. Quando fazes isso, cometes um
erro. A Vida não se justifica no plano material.
erro. A Vida não se justifica no plano material.
- Como posso ver de outra maneira sendo matéria e vivendo pela matéria? O que respiro, o que como, minhas emoções e sentimentos, minhas ambições, minhas alegrias e tristezas, meus amores e desamores, enfim, tudo que me norteia é matéria. Vim do pó, e para o pó hei de retornar.
Como posso ver de outro modo?
- Teu corpo é matéria, mas não a Vida. Enganas quando pensas viver para a matéria. Teu corpo feito
matéria serve apenas para abrigar teu Espírito. Tua função é permitir a evolução, o que deves entender
como purificação, ou elevação. O sopro da Vida não veio do pó, apenas o corpo físico veio. O sopro da Vida
veio da essência do Criador, e é para ele que tu vives. É ele o sentido da Vida.
matéria serve apenas para abrigar teu Espírito. Tua função é permitir a evolução, o que deves entender
como purificação, ou elevação. O sopro da Vida não veio do pó, apenas o corpo físico veio. O sopro da Vida
veio da essência do Criador, e é para ele que tu vives. É ele o sentido da Vida.
- Falaste-me de sentimentos e emoções, da criança, do velho sábio e da moça. – continuou.
Dizei-me:
- Qual o sentido de tais sentimentos, sendo eles passageiros?
O amor que juras pela mulher termina, de uma forma ou outra, quando essa mulher não corresponde ao teu sentimento, ou quando acredita ter se apaixonado por outra.
A alegria da mulher no parto termina quando o filho deixa de ser criança, e até mesmo a pureza dessa criança acaba quando se torna adulto.
- Deixas-me confuso.
- À matéria pertence o que é matéria, e ao Espírito o que é Espírito. Está escrito no livro que foi deixado
e ensina que o joio não se mistura ao trigo. Entenda que a Vida pertence ao Espírito e não à matéria. Esta tem uma existência limitada, enquanto o Espírito segue seu ciclo até o Criador.
Ouvindo o que lhe era dito, começou a perceber que a resposta que buscava, já era de seu conhecimento antes mesmo de dar o primeiro suspiro, e que nascera com ele ainda no ventre.
Compreendeu que ao longo de sua existência, esse conhecimento fora encoberto por aspirações desenvolvidas pelas emoções, por anseios e necessiadades materiais. Percebeu que a Vida nada mais é que uma trama complexa pela simplicidade de seu enredo. Uma grande e misteriosa armadilha.
Não respondeu. Não havia resposta.
- É chegado o momento. É preciso fazer com que o Ciclo prossiga.
Esta frase ecoou em seu cérebro de um modo estranho, como se estivesse em outro plano. Viu cenas desfilarem diante de seus olhos numa rapidez que não podia conceber.
Um manto de névoa com um colorido turvo, porém suave, cobriu sua visão, e não teve certeza de onde estava. As lembranças dos últimos momentos começaram a dissipar em sua mente. Espectros se aproximaram dele e suspirou profundamente. Não reconheceu mais a colina. Não sabia agora, onde estava.
E também não viu mais seu interlocutor.
Anderson Aguilar

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