Outrora homérico vate laureado,
Hoje ataúde de vermes vorazes
Tenta extenuado ver o que não pode,
Preso no repugnante corpo orgânico.
Na víscera superior, neuros explodem em
Descargas elétricas e aleatórias, enquanto
Estranhas células viajam alucinadas por
Um labirinto sem começo e sem fim.
Carcomido pelas próprias entranhas e
Alvo da facécia de seres vacantes.
O fétido zumbi - nessa carcaça danosa -
Perambula errante, até o dia do Juízo.
A Alma, assim presa no tecido putrefato,
Cria amaldiçoada do primeiro par,
Pena por pecados não cometidos
Cumprindo a promessa que não fez.
Poesias e Prosas escritas com a alma do homem do interior de Minas,com a alma do Lobo. Textos filosóficos que certamente o levará à reflexão.
Quem sou eu
- Anderson Aguilar
- Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brazil
- Mineiro, os sete pecados capitais, a solidão, a culpa, são temas que abordo. Irmão em espírito do Lobo. Esse sou Eu.
domingo, 31 de julho de 2011
sexta-feira, 29 de julho de 2011
Vou escrever...
Penso...
- Vou escrever o que não quero!
Sombra e Solidão. Caretas... Vazio.
- Vou escrever o que não quero!
Largo o lápis, levanto e olho na janela,
Não há nada a não ser Vacância...
- Vou escrever o que não quero!
Saio e vou para o parque. Um casal
Discutindo e o olhar perdido da criança.
Buzinas, gritos, cenas discrepantes...
- Seres alienados andam como zumbis!
Olho o cartaz no teatro: “Carmina Burana”
Bilheteria esgotada. Teatro cheio.
Mês passado era “Il Pagliacci”. Teatro vazio.
Um grito, tiros, corre-corre, um assalto.
- Vou escrever o que não quero!
Acendo o cigarro - ingrato amigo - e volto.
O telefone toca, convite para uma festa.
Festa!?... abro o vinho e ouço Pink Floyd:
“Comfortably Numb”...
- Você é legal mas é meio maluco! Dizem.
- Cadê as Árvores?...
- Cadê os Rios e as Lagoas?...
- Cadê o chocalhar do sapo?...
Restam ainda, a pureza da criança
E o sussurrar do vento...
Você é meio maluco...
Vou sonhar e acreditar no que não existe,
E vou escrever o que não quero!
quinta-feira, 28 de julho de 2011
Humanês
Nascer, crescer, envelhecer.
Antes, apaixonar, conhecer.
Namorar, noivar, e casar.
Plantar, colher, e comer.
Tomar, juntar, e vender.
Refletir, pensar, e falar.
Pegar, levar, e largar.
Roubar, e arrepender.
Mover, temer e andar.
Cobiçar, desejar, querer.
Envaidecer, e endurecer.
Amar, sem saber Amar.
Ser amado sem saber.
Saber sem saber. Morrer.
O Espelho
Vê o ritmo na dança que zomba
Com olhos ardendo no fogo que vela,
E o rio de água turbulenta que batiza
No ritual macabro que aterroriza.
Abre a bica. Joga a água no rosto
Na tentativa de expulsar o Demo,
Que lhe revela sarcástico, a cena
De terror que reflete no espelho.
Amedrontado, acende o cigarro
E na fumaça vislumbra a sombra
Da consciência que não o larga.
- Amaldiçoa em vão o Purgatório!
Vê as pessoas na rua em frente
Irem de encontro ao cadafalso,
Como se fossem ao piquenique.
- Maldito seja o saber humano!
Vê uma criança sozinha na praça
Com o olhar distante e tristonho,
E entende que o ritual demoníaco,
É a consciência que julga e acusa.
Extemporâneo
Duas horas. Noite chuvosa.
É verão, estação das chuvas.
Olho pela janela do quarto
E vejo a água que cai e escorre.
Ah! Os sonhos...
No mundo que não reconheço,
Vivo e respiro o que não devia.
Oxalá não tivesse olhos para ver,
Não tivesse ouvidos para ouvir
E não blasfemasse tanto.
Há muito meu coração se tornou
Refém de uma tristeza profunda.
A melancolia viaja nas veias e irriga
Minha mente de modo vertiginoso.
Estou só, sufocado em minha dor!
Árvores secas e de triste aspecto,
Plantas sibilinas e ameaçadoras,
Ramificações espalhadas na terra
Como em busca de alguma presa,
Compõem a cena do antigo jardim.
Tento me lembrar das flores
E do canto da passarada!
Tento ouvir o som da cachoeira,
E sons escatológicos rasgam o cérebro!
- A antevéspera do Apocalipse!
A chuva me lembra a vó Dolores
“... lava a terra e a alma...”
Dizia ela da sua cadeira de balanço.
Sempre acreditei. Mas, agora...
- Tem algo errado com o tempo!
A chuva aumenta lá fora.
Imagens num vaivém constante.
A dimensão do tempo, o espaço.
Discrepâncias.
Ah! Vó Dolores...
- Preciso ainda acreditar!
Contraditório
Tem algo errado...
No contraditório que não contradiz,
No oposto que está do mesmo lado,
Na teia harmônica que não condiz,
No moço que chora e vira carrasco.
Na água cristalina que é turva,
No alimento que virou toxina,
No João de barro abandonado,
No jardim moldado no cimento.
Tem algo errado...
No cigarro que alivia e que mata,
No vinho tinto que sai da indústria,
No queijo que desmancha na mesa,
E no beijo que denuncia o Salvador.
No poeta que não escreve mais,
No escritor que perdeu a letra,
No músico que toca sem pauta,
E na orquestra que ficou órfã.
- Não! Não nasci nesse mundo
Ingrato em que reina o torpor!
O mundo que nasci foi morto
Pelo filho gerado com amor!
Mas... É nele que vivo e sofro,
Não por escolha, pelo Destino
Decidido no verso da moeda
De aço, e forjada no egoísmo.
Consciência II
Vermes medonhos, horrendos e pestilentos,
Roçam seu pêlo, e no enredo do medo,
Penetram nas entranhas estranhas rastejando,
E sugam de modo bruto seu sangue rubro.
Num fedorento e funesto quarto agoniza,
Travando no âmago uma injusta batalha.
No leito fétido repousa sua vã esperança,
Abocanhada e sugada pela boca macabra.
Lampejos de sonhos são pesadelos,
Negros e terríveis coriscos nos olhos,
Mostram os horrores do grego Dédalo,
Prisão do mundo criada pelo ser nefasto.
Num suspiro, longe de ser o último,
Seu carcomido e rasgado cérebro,
Compreende que o pai desse mundo
És tu, cruel e desgraçado monstro.
Consciência I
Chega a noite e me deito,
Tento dormir, não consigo.
Fecho os olhos, a mente turva,
Imagens disformes. A labareda.
Espectros voam, fazem barulho.
- Oh!!... Querem me devorar.
O quarto é um necrotério pálido.
Lugar macabro para o descanso!
Abro os olhos e nada muda.
A parede se move... Um túnel!...
- Pesadelo vivo da raça humana!
O preço de um ser miserável.
- Sepulcro consciente do verme insano!
Levanto, e cambaleando vou até a janela,
Luzes brilham num lusco-fusco lá embaixo,
E o fantasma da vida segue em sua tortura.
Um zumbido apavora, a dor rasga o peito,
- Onde está a cama?
Surge indecifrável uma voz cavernosa.
- Maldito som de um ser medonho!...
Olho o relógio, o ponteiro não anda.
Cúmplice hipócrita do silêncio fúnebre.
Ironia... Eu criei a máquina do tempo.
Juiz e carrasco da própria perversidade.
Puxo uma cadeira e sento.
- Aguardo a morte...
- ... Espero a vida.
Gentilha
Embriagado pelo ar fétido
Que respiro no ambiente
Do bar da esquina da rua,
Vejo gente espremida entre
Gente que não se conhece.
Gente que pensa, que fala,
Que anda perdida no mar
De concreto. Um complexo
E estranho mundo de tribos
Sociais, e amedrontadas.
Gente que baila no samba
Sem saber de fato, do fato
Que torna o fato macabro
No baile da vida sem rumba,
E marcada pelo anonimato.
O ritmo forte da musica
Marcada, marca o golpe
Que fere a alma genuína,
E risca o rabisco na pauta
Da musica nunca ouvida.
Prefiro então, ainda que só,
Cantarolar Beethoven a ser
Parte dessa gente mutante e
Obesa, vil gentalha do reinado
Da caricatura e do medíocre.
Confissão
Minha vida é feita de um misto
De sonhos, fantasias e realidade.
Fantasia e sonho, e a inocência que
Nunca pude viver, ou compartilhar.
A realidade, porém, minha amiga
Que maltrata e dilacera os sonhos,
É minha amante não amada.
- Retrato do maldito que atormenta!
A rosa travestida em espinho,
Os sonhos em preto-branco
E a inocência muda e presa,
Pincelam o sorriso escondido.
O brilho do olhar que se perdeu no tempo,
O suor que embaça a face limpa e serena
E esconde a alegria nascida e não criada,
Adornam a vida do menino, já esquecido.
Alucinação
Fecho os olhos.. e vejo fantasmas,
Sinto vermes andarem em meu corpo
Esquálido, maltrapilho e doente,
Deitado no catre tosco sem colchão.
Levanto, e caminho até janela.
Olho para o vazio, não da cidade,
Mas da alma, e choro o pranto que
Não vem, encoberto pela amargura.
Espero e desejo que a lua no céu
Permaneça. Escuto o uivo do lobo.
Afago com a mão rude o rosto vazio
Que revela a Solidão. Carrasco cruel.
Assim passo os dias. Acorrentado na
Tortura inclemente do prazer do riso
Mortal e leviano, daquele que anda
Ao meu lado, como gentil amigo.
Ciúmes
Sinto ciúmes...
Dos raios do sol que aquecem seu corpo,
Dos raios da lua que compartilham seus sonhos,
Do vento que sopra suave seus cabelos sedosos,
Da brisa que acaricia sua pele doce e aveludada.
Sinto ciúmes...
Das florestas e das plantas que lhe
Sussurram doces palavras de amor,
Do sabiá e do canário que lhe
Entoam belas melodias, e das rosas
E lírios acariciados por suas mãos.
Mas... O que estou dizendo?!
Como ter ciúmes
Dos raios do sol que aquecem o amor
Em meu peito?
Dos raios da lua, cúmplice dos meus
Sonhos de amor por você?
Do vento que traz aos meus ouvidos,
A doce canção que acaricia seu rosto,
Como se fossem minhas mãos?
Como ter ciúmes
Das florestas se foram elas o berço
Encantado da minha amada?
Do sabiá e do canário que cantam
Rendendo homenagens ao meu amor?
Das rosas e lírios que simbolizam e
Traduzem o amor que sinto?
Ah! Meu amor,
Perdoa o ciúme que surge
Pois ele é somente, tão somente,
Uma cantiga de amor.
Cenas de Amor
Cenas de um magico momento
Moldam as doces lembranças,
E no compasso descompassado
Pulsam no coração enamorado.
O encontro tramado pelo Deus do acaso,
Frases disparadas como flechas no peito
E ditas com a emoção e a simplicidade
Do guerreiro banhado pelo pó de Eros.
O toque suave das mãos macias...
O não querer involuntário de querer...
Ficar distante, e tão perto, e chorar o
Riso da alegria do primeiro amor.
O sangue pulsar na veia no ritmo
Frenético e sem controle aparente,
O pensamento preso no turbilhão
Da emoção causada pelo amor.
São cenas do amor nascido na
Troca do olhar não planejado,
E fincado como lança no peito.
- Desejado... mas nunca vivido!
Auto Retrato
A carcaça magra envolve
O esqueleto do corpo que
Insiste em se manter ereto,
Extenuado pela luta ingrata.
O olhar triste, quase infantil,
Contrasta pela face ríspida.
- Invólucro de desamores e
Sonhos destruídos no berço!
O peito guarda o invólucro
Que deveria conter alegrias,
Mas que se tornou depósito
De melancolia e amargura.
Caminho pelas ruas desertas
Das cidades, em busca daquilo
Que se perdeu no tempo, e que
Que também já se escondeu de
Minha quase nenhuma memória.
Apocalipse...
O buraco no fundo do poço,
Arregaça o regaço no melaço
Do olho revirado, que revira
No tropeço do moço no poço.
Revirado no poço sem fundo,
Agoniza enlameado no melaço
Da alma estraçalhada que mora
No corpo, esmiuçado e morto.
O choro sem lágrima e ouvido
Apenas no pântano do inferno
Em que habita, ressoa doído
No espírito sufocado pelo fogo.
No alto da montanha, o Louco,
Amigo do lobo, só, e aquietado
No silencio da floresta amiga,
Contempla o fim anunciado!
A Casa
Um livro esquecido na sala
E o velho abajour apagado,
O mofo da antiga poltrona.
Na moldura ogre, o quadro.
Na varanda passa um vulto
Enquanto ecoa o lamento.
O tic tac responde alheio
Ao ciclo mágico do tempo.
No jardim fantasmagórico
Zumbe o vento como uivo,
A dor que expõe o gemido
Da vida esquecida na casa.
A vida da gente que se foi
E o sorriso que se fez choro,
Fere o coração no meu peito
Nas lembranças da infância.
Para onde foi a alegre família
Que cantava ao som do violino?
Por que partiram e me deixaram
Junto a essa sufocante nostalgia?
- Segurem minha mão!
-Tirem-me desse lugar!
A Minha Dor
O que dói,
Não é a dor que fere a carne,
É o choro da criança carente...
É o choro que o sorriso omite...
A dor que chega mansa e triste!
O que dói,
É a dor que fere, invade, arrasta.
É a dor crua escondida na alma!
É a dor que sangra no espírito!
A dor do parto que nunca veio.
O que dói,
É a dor muda da mãe estéril,
É a dor da culpa sem culpa.
Do frio que esconde o calor,
Do rio que não chega ao mar.
Oh!...
Essa desconhecida e obscura
Que se esconde no riso solto,
É a dor que me corta o peito
E rasga a veia da alma pura!
Civilizado Mundo
Acorrentada por grilhões de ferro,
A alma vil e putrefata é laureada
Na tosca cadeira da prepotência.
- E escancara o desdentado sorriso!
O Ser vivente na agonia do pecado,
Desfila a carcaça nua e moribunda,
Manifestada na Dança dos Mortos
No hediondo ritual dos cadáveres.
Perpetuado, sofre o ranger de dentes
Afiados na carne crua, e recomposta
Na eterna vida e morte, mergulhado
Nos mares revoltos do Fogo Maldito.
Pena, assim, o miserável Ser civilizado
Esquecido da Lei ensinada nos templos,
Em troca das promessas feitas no lodo
Do Inferno. - Oceano de prazeres ociosos!
Amizade Traída
Ah! Falso amigo, asquerosa criatura! Ainda zombas daquele que outrora, Em tempos já esquecidos de amargura, Te amparaste e enxugaste tuas lágrimas.
Nessa redoma translúcida em que vives, Cercado da luxúria intelectual do teu ego, E mergulhado no lodaçal do teu saber, Escancara tua boca num sorriso pérfido.
Nos teus dias passados de padecência Encontraste na pachorra de um pacato, O refúgio para tua pífia pabulagem, Aprestando a vereda de tua vida infame.
- Hoje, marco de meus dias derradeiros, Teu sorriso fere minha alma moribunda. Não pelas dores em meu peito pacóvio, Mas, por teres aberto teu próprio féretro.
AndersonAguilar
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