Duas horas. Noite chuvosa.
É verão, estação das chuvas.
Olho pela janela do quarto
E vejo a água que cai e escorre.
Ah! Os sonhos...
No mundo que não reconheço,
Vivo e respiro o que não devia.
Oxalá não tivesse olhos para ver,
Não tivesse ouvidos para ouvir
E não blasfemasse tanto.
Há muito meu coração se tornou
Refém de uma tristeza profunda.
A melancolia viaja nas veias e irriga
Minha mente de modo vertiginoso.
Estou só, sufocado em minha dor!
Árvores secas e de triste aspecto,
Plantas sibilinas e ameaçadoras,
Ramificações espalhadas na terra
Como em busca de alguma presa,
Compõem a cena do antigo jardim.
Tento me lembrar das flores
E do canto da passarada!
Tento ouvir o som da cachoeira,
E sons escatológicos rasgam o cérebro!
- A antevéspera do Apocalipse!
A chuva me lembra a vó Dolores
“... lava a terra e a alma...”
Dizia ela da sua cadeira de balanço.
Sempre acreditei. Mas, agora...
- Tem algo errado com o tempo!
A chuva aumenta lá fora.
Imagens num vaivém constante.
A dimensão do tempo, o espaço.
Discrepâncias.
Ah! Vó Dolores...
- Preciso ainda acreditar!

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